A ideia do Digg
Como um homem aproveitou o fascínio que tinha por computadores para criar um dos sites de notícias mais visitados do mundo | por Petra Guglielmetti
Nos dois meses depois que criou o site digg.com, Kevin Rose não precisou de despertador. "Ás 6 da manhã, eu já estava no computador", recorda ele, "apavorado com o que poderia haver na minha própria página."
Eis o porquê: não existem editores experientes para decidir como será a primeira página do seu site. Ela é escolhida apenas pelo voto popular. Os usuários enviam notícias e imagens, encontradas em qualquer lugar, desde sites de grandes jornais até pequenos blogs, e, com um clique, o público leitor dá um "digg" (para dizer que gostou do item: dig, em inglês, significa escavar, gostar) ou um "bury" (para avisar que não gostou; bury, em inglês, significa enterrar). Todos os dias é possível encontrar notícias sobre o Iraque e ao lado de manchetes como "Jujubas sabor bacon!" e "Outra placa na estrada alerta contra zumbis".
"Às vezes, a gente vê duas manchetes e pensa: Nenhum editor, em sã consciência, poria uma ao lado da outra", diz Rose, de 32 anos. Isso faz parte da graça. Hoje, o site recebe 35 milhões de visitantes por mês. Um link na página do Digg pode produzir um maremoto de visitas, capaz de transformar um recém-chegado à Internet num participante de peso - ou derrubar um site menor e mal equipado. E os investidores vêm comprando a ideia; em setembro de 2008, o Digg obteve 28,7 milhões de dólares em investimentos em capital de risco. Muitos acreditam que o site vale mais: disseram que o Google estava pensando em comprá-lo por 200 milhões de dólares. (Nenhuma das duas empresas quis comentar.)
Rose diz que seu plano nunca foi ganhar uma fortuna. Quando criou o Digg, ele pensou: Se isso pagar o meu aluguel e eu puder ficar em casa tomando chá e montar um escritoriozinho maneiro, será fantástico. É o tipo de sonho que se espera de um menino-prodígio da Internet. Quando criança, em Las Vegas, Rose era "o garoto menos popular da escola", que aos 8 anos passava horas no computador antigo da família, digitando códigos para criar uma bola de encher animada. No início da década de 1990, convenceu os pais a comprar-lhe um computador, que usava para conversar sobre tecnologia com outros "nerds" nas salas de bate-papo.
Às vezes, a paixão de Rosa passava à frente do dever de casa, e a mãe lhe confiscava o teclado quando as notas eram ruins. "Abri um furo na escrivaninha e passei uma corrente, para que ela não pudesse mais tirá-lo", diz Rose. Aos 15 anos, consertava computadores. Aos 19, arranjou emprego dando suporte ao site de teste do Departamento de Energia do Estado de Nevada, enquanto frequentava a universidade estadual. E, aos 21 anos, largou a faculdade e mudou-se para o Vale do Silício.
Rose teve a ideia do Digg em 2004, quando apresentava um programa na TV a cabo sobre tendências da tecnologia. Os sites de contatos sociais, como Facebook, tinham acabado de explodir, atraindo usuários que podiam mostrar fotos, links e vídeos e também conversar. Rose criou o site que levava essa abordagem para as notícias. Estreou em novembro de 2004. "Foi uma experiência", explica. "Queria descobrir quais notícias apareceriam, e se seriam de boa qualidade." Mas quando o número de visitantes do Digg chegou a algumas milhares por mês, o bastante para arranjar anúncios, Rose largou o emprego. Em 2005, o tráfego mensal do Digg chegou a 200 mil visitas e ele contratou um diretor-executivo, pessoal administrativo e arrecadou 2,8 milhões de dólares. Hoje, o Digg é um dos sites mais visitados dos EUA.
Como ocorre na Internet, o Digg ainda não descobriu como transformar o tráfego de visitantes em lucro. Mesmo assim, continua a evoluir. Agora, o Digg recomenda reportagens aos usuários, com base em outras reportagens de que gostaram. Também permite que votem em perguntas que gostariam de fazer a políticos e celebridades.
Enquanto isso, Rose dorme a noite toda. Ainda verifica a página de manhã, mas antes prepara uma xícara de chá para apreciar o motim.
O sucesso com Kevin Rose
Abrir uma empresa na Internet é tão fácil quanto parece?
Claro! Em 200, para abrir um site era preciso comprar servidores muito caros. Não havia tantos desenvolvedores autônomos. Hoje é possivel alugar um servidor por 100 dólares ou menos por mês e contratar um programador autônomo por 10 ou 12 dólares a hora, e com alguns milhares de dólares pôr o site no ar.
Qual o seu conselho para quem quer criar um site?
Muita gente passa tempo demais planejando e tentando deixar tudo perfeito antes de pôr a página no ar. Mas a gente só vai saber o que os usuários acham depois que tiverem acesso ao site. Ponha no ar, descubar o que a comunidade acha, depois refine e relance, refine e relance. Você vai cometer um monte de erros, e isso é bom. Sempre se pode eliminar o que não deu muito certo. Além disso, aguente o máximo possível antes de procurar investidores, porque quanto mais tempo esperar, maior será a valorização e menos participação na empresa será preciso você ceder.
Em algum momento você se afasta do computador?
E muito fácil ficar ligado no computador; acho que passo umas 12 ou 14 horas por dia na frente dele. Mas no fim de semana, preciso me desligar. À medida que estou ficando mais velho, percebo que nã dá para viver online. Oou vou me entediar, ou me matar. Também tive de começar a usar óculos.
Qual o melhor conselho que já lhe deram na área de negócios?
Não é preciso trabalhar para os outros; é possível fazer o que a gente quer, e talvez dê certo. Além disso, faça o que gosta. Na minha família, todos seguimos nossas paixões. Isso é o mais importante.
Algum empresário ou empreendedor o inspirou?
Quando eu era garoto, um deles foi Bill Gates, com certeza. E Steve Jobs, é claro. Adoro o fato de ele prestar uma atenção enorme aos detalhes dos produtos. É demais quando a gente abre a embalagem de um produto Apple, e tudo, desde o tipo de letra do manual até o jeito de embalar, é perfeito; isso é importantíssimo.
Fonte: Seleções, Novembro de 2009, Pág.27-29

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